Estimar o gasto energético é a base do plano alimentar. Errar para mais ou para menos vira gordura indesejada ou perda de massa magra. Esse guia comparativo organiza as três equações mais usadas em adultos, com exemplos numéricos e ajustes para situações especiais.
TMB × TMR × GEB × GET
- TMB (Taxa Metabólica Basal) — energia mínima em jejum, repouso, neutralidade térmica. Padrão laboratorial estrito.
- TMR (Taxa Metabólica de Repouso) — semelhante à TMB, mas com paciente acordado, em pé eventualmente. Levemente maior. Na prática clínica, "TMB" e "TMR" são usados quase como sinônimos.
- GEB (Gasto Energético Basal) — sinônimo de TMB.
- GET (Gasto Energético Total) — TMB × FA × outros ajustes (efeito térmico do alimento, exercício específico).
Equação Mifflin-St Jeor (1990)
Publicada em The American Journal of Clinical Nutrition em 1990. É a equação mais validada para adultos eutróficos modernos.
Mulheres: TMB (kcal/dia) = 10 × peso (kg) + 6,25 × altura (cm) − 5 × idade (anos) − 161
Equação Harris-Benedict (1919/1984)
Original de 1919, revisada por Roza & Shizgal em 1984.
Homens: TMB = 88,362 + (13,397 × peso) + (4,799 × altura cm) − (5,677 × idade)
Mulheres: TMB = 447,593 + (9,247 × peso) + (3,098 × altura cm) − (4,330 × idade)
Em validações modernas, tende a superestimar em 5–10% comparada a calorimetria indireta — uma das razões pelas quais Mifflin-St Jeor a substituiu como referência padrão.
Equações FAO/OMS (1985)
Publicadas no relatório Energy and Protein Requirements (FAO/WHO/UNU 1985). Estratificadas por sexo e faixa etária. Para adultos:
| Faixa etária | Homens | Mulheres |
|---|---|---|
| 18–30 anos | 15,3 × peso + 679 | 14,7 × peso + 496 |
| 30–60 anos | 11,6 × peso + 879 | 8,7 × peso + 829 |
| > 60 anos | 13,5 × peso + 487 | 10,5 × peso + 596 |
É a equação adotada em parte das diretrizes brasileiras e em saúde coletiva. Não inclui altura — vantagem operacional, mas com perda de precisão individual.
Fator de atividade física (FA)
| Categoria | FA | Descrição |
|---|---|---|
| Sedentário | 1,2 | Sem exercício; trabalho de escritório |
| Levemente ativo | 1,375 | Exercício leve 1–3 dias/sem |
| Moderadamente ativo | 1,55 | Exercício moderado 3–5 dias/sem |
| Muito ativo | 1,725 | Treino intenso 6–7 dias/sem |
| Extremamente ativo | 1,9 | Atleta de alto rendimento; trabalho físico pesado |
Em paciente sedentário comum, prefira 1,2 (não 1,3) — superestimar o FA é o erro mais frequente do consultório.
Exemplos práticos comparados
Caso 1 — Mulher, 32 anos, 65 kg, 1,65 m, moderadamente ativa
- Mifflin-St Jeor: TMB = (10×65) + (6,25×165) − (5×32) − 161 = 650 + 1031,25 − 160 − 161 = 1.360 kcal
- Harris-Benedict: TMB = 447,593 + (9,247×65) + (3,098×165) − (4,330×32) = 447,6 + 601,1 + 511,2 − 138,6 = 1.421 kcal
- FAO/OMS: TMB = (11,6×65) + 879 (idade não se aplica nessa faixa adulta de 30–60 — usar 11,6) — para 18–30 (a paciente tem 32, em rigor entra em 30–60): TMB = (8,7×65) + 829 = 565,5 + 829 = 1.394 kcal
- GET (FA 1,55): Mifflin = 2.108 kcal · HB = 2.203 kcal · FAO = 2.161 kcal
Diferença máxima: ~95 kcal/dia (~4%). Para prescrição clínica, escolha uma referência (em geral Mifflin-St Jeor) e calibre pelo acompanhamento.
Caso 2 — Homem, 45 anos, 92 kg, 1,80 m, sedentário
- Mifflin-St Jeor: TMB = (10×92) + (6,25×180) − (5×45) + 5 = 920 + 1125 − 225 + 5 = 1.825 kcal
- GET (FA 1,2): 2.190 kcal
Caso 3 — Atleta masculino, 28 anos, 78 kg, 1,77 m, muito ativo
- Mifflin-St Jeor: TMB = (10×78) + (6,25×177) − (5×28) + 5 = 780 + 1106 − 140 + 5 = 1.751 kcal
- GET (FA 1,725): 3.020 kcal
Para atletas, o método dos múltiplos da TMR específicos por modalidade (Burke, Loucks et al.) ou o cálculo direto pelo gasto do treino + TMR é mais preciso. Detalhes em nutrição esportiva (ISSN).
Ajustes em obesidade
Em IMC ≥ 30, três estratégias clínicas:
- Usar peso atual com Mifflin-St Jeor — funciona para grau I; em grau II–III tende a superestimar TMR.
- Peso ajustado: peso ajustado = peso ideal + 0,25 × (peso atual − peso ideal). Usado em diretrizes ASPEN para terapia nutricional.
- Calorimetria indireta — padrão-ouro em paciente crítico ou cirúrgico bariátrico.
Sempre calibre pelo acompanhamento (peso, composição, sinais clínicos) — equações são ponto de partida, não receita final.
Gestação e lactação
Conforme DRI/IOM 2002 (Macronutrients):
- 1º trimestre: +0 kcal sobre o GET pré-gestacional
- 2º trimestre: +340 kcal/dia
- 3º trimestre: +452 kcal/dia
- Lactação 0–6 meses: +330 kcal/dia (com perda esperada de gordura corporal pós-parto)
- Lactação 6–12 meses: +400 kcal/dia
Adapte conforme ganho ponderal real e curva esperada (Atalah ou IOM).
Quando usar calorimetria indireta
Padrão-ouro de medição. Recomendada em:
- Paciente crítico (UTI)
- Cirurgia bariátrica (pré e pós)
- Dúvida diagnóstica relevante (paciente que não responde como esperado)
- Pesquisa
- Atleta de alto rendimento com performance limitada por nutrição
Em consultório autônomo, calorimetria é raro — equações + acompanhamento clínico cobrem 95% dos casos.
Recapitulando
- Mifflin-St Jeor (1990) é o padrão para adulto eutrófico
- Harris-Benedict (revisada 1984) é a alternativa clássica — tende a superestimar
- FAO/OMS (1985) usada em saúde coletiva — sem altura
- FA: 1,2 sed / 1,375 leve / 1,55 mod / 1,725 muito / 1,9 extremo
- Em obesidade: peso ajustado ou calorimetria indireta
- Gestante: +340 kcal (2º) e +452 kcal (3º); lactação: +330 kcal
- Sempre calibre pelo acompanhamento clínico
Próximas leituras: distribuição de macronutrientes (AMDR), DRIs aplicadas na prescrição e anamnese nutricional completa.