Antropometria continua sendo a primeira ferramenta de diagnóstico nutricional em qualquer cenário clínico — do consultório autônomo ao hospital. É barata, reproduzível e amplamente padronizada. Esse guia consolida pontos de corte, protocolos e equações com referências verificáveis.
Padronização e protocolo
O protocolo internacional mais usado é o da ISAK (International Society for the Advancement of Kinanthropometry). Princípios gerais:
- Equipamento calibrado (balança, estadiômetro, fita inelástica, adipômetro)
- Paciente em traje leve, descalço
- Pontos anatômicos demarcados antes da medida (caneta dermatográfica)
- Lado direito por convenção (exceto contraindicação)
- Duas medidas; terceira se variação acima do tolerável
- Anotação ao 0,1 cm e 0,1 kg
Peso, estatura e IMC
- Balança digital calibrada (precisão 100 g)
- Estadiômetro fixo na parede ou portátil rígido (não use a fita métrica colada)
- Cabeça no plano de Frankfurt (linha imaginária do meato auditivo ao ponto inferior da órbita)
- IMC = peso (kg) / estatura² (m)
Pontos de corte clássicos da OMS para adultos:
| IMC (kg/m²) | Classificação OMS |
|---|---|
| < 16,0 | Magreza grau III |
| 16,0 – 16,9 | Magreza grau II |
| 17,0 – 18,4 | Magreza grau I |
| 18,5 – 24,9 | Eutrofia |
| 25,0 – 29,9 | Sobrepeso |
| 30,0 – 34,9 | Obesidade grau I |
| 35,0 – 39,9 | Obesidade grau II |
| ≥ 40,0 | Obesidade grau III |
Para idosos (> 60 anos), os pontos da Lipschitz (1994) são mais aceitos: < 22 = baixo peso; 22–27 = eutrofia; > 27 = sobrepeso/obesidade. Reflete a redução fisiológica de massa magra.
Perímetros essenciais
- Cintura abdominal — entre a última costela e a crista ilíaca
- Quadril — maior protuberância dos glúteos
- Pescoço — abaixo da cartilagem cricóidea
- Braço relaxado — ponto médio entre acrômio e olecrano
- Panturrilha — maior perímetro
- Coxa proximal/medial/distal — protocolo dependente do método
Cintura abdominal: pontos de corte
| Critério | Homens | Mulheres |
|---|---|---|
| IDF 2005 (sul-americanos) | ≥ 90 cm | ≥ 80 cm |
| ATP III (NCEP) | ≥ 102 cm | ≥ 88 cm |
| OMS — risco aumentado | ≥ 94 cm | ≥ 80 cm |
| OMS — risco substancialmente aumentado | ≥ 102 cm | ≥ 88 cm |
Em prática clínica brasileira, a referência IDF 2005 é a mais aplicada para diagnóstico de obesidade abdominal e síndrome metabólica.
RCQ e RCEst
RCQ — Razão Cintura/Quadril
- Homens: risco aumentado se > 0,90; risco alto > 1,0
- Mulheres: risco aumentado se > 0,85; risco alto > 0,90
RCEst — Razão Cintura/Estatura
- < 0,5 = baixo risco
- ≥ 0,5 = risco aumentado (independente de sexo, idade, etnia)
RCEst é simples, robusta e sensível — vem ganhando espaço como ferramenta de triagem rápida em atenção primária.
Dobras cutâneas: protocolos
Para adultos brasileiros, três protocolos dominam:
Jackson & Pollock 7 dobras (1978/1980)
- Peitoral, axilar média, tríceps, subescapular, abdominal, suprailíaca, coxa
- Equação preditora derivada de população americana — uso clínico amplo
Jackson & Pollock 3 dobras
- Homens: peitoral + abdominal + coxa
- Mulheres: tríceps + suprailíaca + coxa
- Versão simplificada, menor variabilidade interavaliador
Petroski 4 dobras (1995)
- Subescapular, tríceps, suprailíaca, panturrilha (homens) / axilar média, suprailíaca, coxa, panturrilha (mulheres)
- Validada em população brasileira — preferida para essa razão
Guedes 3 dobras
- Tríceps, suprailíaca, abdominal (homens) / coxa, suprailíaca, subescapular (mulheres)
- Adaptação brasileira por Dartagnan Guedes
Para escolha clínica: Petroski 4 ou Jackson & Pollock 3 oferecem bom equilíbrio entre precisão e tempo de medida. Em atletas, J&P 7 é o padrão.
Equações de %GC
Após medir as dobras, aplique a equação correspondente ao protocolo escolhido para obter a densidade corporal (Dc) e, depois, o %GC via Siri (1961) ou Brozek (1963):
- Siri: %GC = (4,95/Dc − 4,5) × 100
- Brozek: %GC = (4,57/Dc − 4,142) × 100
Use sempre a equação validada para a população (idade, sexo, atividade física, etnia) do paciente. Detalhes em guia de composição corporal sem bioimpedância.
Populações especiais
Idoso
- IMC Lipschitz (1994): <22 / 22–27 / >27
- Circunferência da panturrilha < 31 cm = sinal de sarcopenia/desnutrição
- Mini Avaliação Nutricional (MAN) como triagem
Gestante
- IMC pré-gestacional + ganho ponderal recomendado por trimestre (Atalah ou IOM)
- Não usar dobras cutâneas para diagnóstico — uso restrito a pesquisa
Pediátrico
- Curvas OMS 2006 (0–5 anos) e OMS 2007 (5–19 anos)
- Indicadores: peso/idade, estatura/idade, peso/estatura, IMC/idade
- Z-escore como referência (não percentil em todos os contextos)
Registro em prontuário
- Tabela cronológica em prontuário (consulta inicial + reavaliações)
- Equipamento usado (modelo de adipômetro, balança, estadiômetro)
- Protocolo aplicado (Petroski 4, Jackson & Pollock 3, etc.)
- Equação preditora utilizada
- Variação inter-medidas e número de tentativas
- Observações qualitativas (postura do paciente, condições da medida)
Software de gestão clínica (como o DietSystem) costuma ter biblioteca de protocolos antropométricos com cálculo automático de Dc, %GC, MM, MG, RCQ, RCEst e gráficos de evolução. Reduz erro de cálculo e padroniza prontuário.
Recapitulando
- Antropometria = peso, estatura, perímetros, dobras + ferramentas derivadas (IMC, RCQ, RCEst, %GC)
- IMC OMS para adultos; Lipschitz para idosos; OMS 2006/2007 para crianças
- Cintura IDF 2005 (≥90 H / ≥80 M) é a referência brasileira
- RCEst < 0,5 = baixo risco — triagem simples e potente
- Dobras: Petroski 4 ou J&P 3/7 são os protocolos mais usados
- Equação Siri ou Brozek converte densidade em %GC
- Adapte para idoso, gestante e pediatria
Próximas leituras: composição corporal sem bioimpedância, IMC: cálculo e classificação OMS e cálculo de TMB e GET.