O IMC é a ferramenta antropométrica mais usada do mundo. Simples, barato e padronizado, é a primeira camada de qualquer diagnóstico nutricional. Esse guia consolida pontos de corte por faixa etária, limitações e como contextualizar.
Como calcular o IMC
IMC = peso (kg) / estatura² (m). Exemplos:
| Peso | Estatura | IMC | OMS |
|---|---|---|---|
| 52 kg | 1,65 m | 19,1 | Eutrofia |
| 72 kg | 1,68 m | 25,5 | Sobrepeso |
| 96 kg | 1,75 m | 31,3 | Obesidade grau I |
| 118 kg | 1,70 m | 40,8 | Obesidade grau III |
Classificação OMS — adulto (≥ 19 anos)
| IMC (kg/m²) | Classificação | Risco de comorbidades |
|---|---|---|
| < 16,0 | Magreza grau III | Muito alto |
| 16,0 – 16,9 | Magreza grau II | Moderado |
| 17,0 – 18,4 | Magreza grau I | Baixo |
| 18,5 – 24,9 | Eutrofia | Normal |
| 25,0 – 29,9 | Sobrepeso (pré-obesidade) | Aumentado |
| 30,0 – 34,9 | Obesidade grau I | Moderado |
| 35,0 – 39,9 | Obesidade grau II | Severo |
| ≥ 40,0 | Obesidade grau III (mórbida) | Muito severo |
Referência: WHO (1995) e WHO Technical Report Series 854 (1995) e 894 (2000).
Idoso — Lipschitz (1994)
| IMC (kg/m²) | Classificação |
|---|---|
| < 22 | Baixo peso |
| 22 – 27 | Eutrofia |
| > 27 | Sobrepeso/obesidade |
A SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia) recomenda Lipschitz como referência preferencial. A OMS adulta superestima o risco em idosos saudáveis.
Criança e adolescente — OMS 2006/2007
- 0–5 anos: curvas WHO Child Growth Standards (2006)
- 5–19 anos: curvas WHO Growth Reference (2007)
Indicadores: peso/idade, estatura/idade, peso/estatura (em pré-escolar) e IMC/idade. Avaliação por Z-escore.
Pontos para IMC/idade (5–19 anos):
| Z-escore | Classificação |
|---|---|
| < −3 | Magreza acentuada |
| −3 a < −2 | Magreza |
| −2 a +1 | Eutrofia |
| > +1 a +2 | Sobrepeso |
| > +2 a +3 | Obesidade |
| > +3 | Obesidade grave |
O Ministério da Saúde adota essas curvas no SISVAN e na Caderneta da Criança e do Adolescente.
Limitações do IMC
- Não distingue gordura de massa magra — atleta com IMC 28 e %GC 10 não é "obeso"
- Não captura distribuição — abdome × quadril pesam diferente para risco
- Subestima sarcopenia — idoso com IMC 22 pode ter perda funcional grave
- Limites populacionais — populações asiáticas têm risco em IMC menor (≥ 23–25)
- Idade extremas — gestante, criança e idoso têm pontos próprios
- Etilismo, edema, ascite, gravidez distorcem o peso
Combinando com cintura e RCEst
O IMC ganha potência preditiva quando combinado com:
- Circunferência da cintura — cortes IDF 2005 (sul-americanos): ≥ 90 H / ≥ 80 M
- RCEst (cintura/estatura) — ≥ 0,5 = risco aumentado
- %GC por dobras ou BIA — quando disponível
Em paciente com IMC ≥ 25 + cintura no ponto de corte: já há indicação de intervenção mesmo sem outras comorbidades.
Etnia e contexto
A OMS reconhece que populações asiáticas têm risco metabólico em IMC menor — alguns guidelines locais usam ≥ 23 = sobrepeso e ≥ 27,5 = obesidade. Para população brasileira, os pontos clássicos da OMS continuam como referência, mas o nutricionista atento já considera contexto:
- Pacientes asiáticos: risco em IMC mais baixo
- População negra: maior preservação de massa magra — IMC pode ser menos sensível para excesso de gordura
- Idoso: Lipschitz
- Gestante: IMC pré-gestacional + ganho ponderal por trimestre
O novo Código de Ética CFN 856/2026 reforça respeito a marcadores sociais — incluindo na linguagem usada na consulta.
Registro em prontuário
- Data, hora, peso, estatura, IMC calculado
- Classificação OMS / Lipschitz / curva pediátrica
- Cintura, RCEst, RCQ quando disponíveis
- Observações qualitativas (edema, gestação, hidratação alterada)
- Tabela de evolução cronológica
Software clínico calcula automaticamente IMC, classificação e gráficos de evolução. Reduz o risco de erro de cálculo manual (vírgula no lugar errado é mais comum do que se imagina).
Recapitulando
- IMC = kg/m². Padronizado, simples e útil — mas com limitações
- OMS para adulto (1995): <18,5 / 18,5–24,9 / 25–29,9 / ≥30 (graus I-III)
- Lipschitz para idoso (1994): <22 / 22–27 / >27
- OMS 2006/2007 para criança e adolescente, com Z-escore
- Combine sempre com cintura, RCEst e %GC quando possível
- Contexto étnico, gestacional e funcional altera interpretação
Próximas leituras: antropometria nutricional completa, composição corporal sem bioimpedância e cálculo de TMB e GET.